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Marcelo Delvaux: Solo no Cerro Mercedario (6.770m)
Segue abaixo o primeiro relato de Marcelo Delvalux (http://www.setepicosandinos.com) após sua primeira tentativa de escalar o Cerro Mercedario (Argentina) em solo!

Para quem não sabia, eu tirei 10 dias de férias junto com o Carnaval e vim aqui para a Argentina para subir o Mercedário, uma montanha que fica ao norte do Aconcagua e tem 6770 m, a quarta mais alta dos Andes. Teria somente duas semanas para vir para cá, subir a montanha e regressar, um cronograma bem apertado, considerando-se que esta montanha é do nível do Aconcagua ou do Ojos del Salado.

Chegar na montanha já era meio complicado, pois requeria, no mínimo, 2 dias: é necessário ir para Mendoza, depois para San Juan e, de lá, para uma vila chamada Barreal, que só tem dois ônibus diários, um pela manha e outro pela noite. Depois, mais 2 horas em um 4x4 para chegar até o refúgio, localizado a 3000 m.

A idéia era tentar subir bem rápido, em 8 ou 9 dias no máximo, reservando uns dias para a volta ao Brasil. A principal coisa que poderia atrapalhar seria o clima, caso estivesse ruim, pois não poderia ficar muito tempo esperando. Eu cheguei no refúgio em um domingo ensolarado, céu azul e sem ventos. O tempo permaneceu assim por 2 dias, até eu montar meu acampamento base a 3900 m. Como estava fazendo a montanha em solitário, todo deslocamento montanha acima necessitava de dois porteios, para carregar todo o peso.

Já estava meio preocupado até quando o tempo bom iria durar, pois haviam me dito que o clima ali é mais instável que no Aconcagua. Pois bem, no terceiro dia, quando fui fazer o primeiro porteio para estabelecer o acampamento avancado, o tempo mudou e começou a nevar. No quarto dia, quando me mudei do base para o avancado, a 5200 m, tive que montar minha barraca debaixo de nevasca. Mas ainda tinha 4 dias pela frente para o tempo melhorar...

Foram 4 dias preso na barraca, nevando quase sem parar. De vez em quando precisava sair para afastar a neve com o piolet, pois ela já estava comprimindo a barraca. Eu tive que "racionar" o único livro que eu tinha em mãos, estabelecendo o número de páginas que poderia ler por dia, para nao ficar sem nada para fazer (além disso, eu ouvia música e derretia neve para fazer água).

No terceiro dia de minha "prisão domiciliar" o tempo começou a esquentar, apesar de não parar de nevar. Eu interpretei isso como uma possibilidade de mudança de tempo e resolvi me preparar para um ataque ao cume na madrugada. Acordei às duas e meia da manha e estava nevando. Cochilei mais uma hora e olhei para fora novamente: havia algumas estrelas no céu! Então, resolvi partir para cima. Quatro e pouco da madrugada saí. A neve acumulada chegava até o joelho e, com muito esforço, subi pelo glaciar, até que percebi que havia alguma coisa estranha. Era a visibilidade que estava cada vez pior. Ao apagar a lanterna para enxergar a silhueta de umas rochas no alto do glaciar percebi que não dava para ver mais nada: uma nova tempestade estava se formando! Desci rapidamente e, quando cheguei na parte baixa, o vento e a neve que caía já haviam apagado minhas pegadas e não era possível enxergar mais do que 3 ou 4 metros. Me lembrei do episódio do livro "No ar rarefeito", onde as pessoas passaram a noite ao relento no colo sul do Everest, a poucos das barracas, debaixo de uma tempestade. Mas eu havia me prevenido e ligado meu GPS antes de sair da barraca, o que me permitiu localiza-lá sem problemas.

Eu teria somente mais um dia para o tempo melhorar, já que no dia seguinte teria que descer. Meu quarto dia no acampamento avançado começou ainda mais quente que o anterior. Parecia que a camada de nuvens estava cada vez mais fina, refletindo o calor do sol em cima do glaciar. Aconteceu, então, um fenômeno de inversão térmica que eu nunca havia visto. A temperatura começou a aumentar após meio dia: estava 32 graus dentro da barraca; de repente passou para 36, 38, 40 graus! E nevando lá fora. Não dava para sair, o jeito era tirar a camisa e curtir o calor. Aproveitei para tomar um sorvete liofilizado que eu havia levado (é sério, não é brincadeira). Mas, apesar disso, não parava de nevar...

O tempo só abriu às 18:00, desta vez para valer. O problema é que não haveria tempo da neve acumulada derreter. Eu sabia que teria neve pelo joelho dali até o cume. Mas iria tentar assim mesmo. Outra preocupação era com o vento. Por analogia com minha experiência no Aconcagua, depois de vários dias de tempo ruim, o céu azul traz ventos fortes. Só depois de uns 3 ou 4 dias é que chega a janela de tempo bom para o ataque ao cume.

Acordei às 3 da madrugada e estava bastante frio, por isso resolvi ficar mais um tempo na barraca e sair um pouco mais tarde, para ficar menos tempo exposto ao frio da madrugada. Mas às 03:30 não resisti: coloquei a cabeça para fora da barraca e vi um tapete de estrelas no céu. Aparentemente, não estava ventando muito. Me vesti rapidamente, tomei meu café da manha padrão, sucrilhos com leite quente, biscoitos e frutas secas, e, pouco depois das 4, parti para minha última oportunidade de ataque ao cume.

Mais uma vez subi o glaciar com neve até os joelhos. Nao havia mais rota definida para subir a montanha, o jeito era fazer um zigue-zague e procurar alguns lugares onde havia um pouco de cascalho misturado à neve, que congelava e formava uma camada de gelo menos fofa. Consegui subir uns 600 m em três horas, dentro da média de 200 m por hora que eu havia estabelecido. Seria um ataque longo, de 1600 m de desnível, e o objetivo seria fazer o cume em 8 horas.

/www.wmaduro.com.br
Autor: Marcelo Delvaux
 
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706 10/09/2010 00:00:00 146
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